A brecha que (as vezes) a vida nos dá..

      Quinta feira é o dia em que o final de semana esta (quase) chegando, mas infelizmente ainda não chegou. Confesso que nunca gostei das quartas, mas desde que mudei para São Paulo, passei a odiar mesmo o dia seguinte. Normalmente as forças já estão esgotadas, o cansaço já subiu a cabeça e quase sempre é acompanhada de (muita) solidão.

      Nesse quinta-feira eu precisava de uma soneca. Era o que eu estava fazendo, deitada no tapete, coberta com no mínimo 2 cobertores e Ed Sheeran tocando ao fundo. Simplesmente era tudo o que eu precisava para encarar mais duas aulas de Direito-alguma-coisa à noite. Eu estava no momento exato, no sono perfeito, quando o telefone tocou. Confesso que pensei (muito) em não atender, mas número desconhecido sempre me deixa intrigada e sou dessas que não pode ficar intrigada. Era a diarista, que eu havia ligado pela manhã, dizendo que estava sim disponível hoje e já estava a caminho de casa. Se a minha bagunça não tivesse passado tanto do limite permitido tenho certeza que diria para ela vir amanhã, semana, ano ou século que vem. Eu precisava daquela soneca, como precisava de um descanso. Precisava daquela soneca, como precisava de mais um cobertor.

      Enquanto enrolava, desenrolava e fingia acordar, a campainha tocou. Era ela (ô, querida Cida) com aquele sorriso que eu juro que não tem como ficar brava simplesmente por ter aparecido na hora errada. Faltava (muitos) produtos de limpeza, o que era óbvio se eu não tivesse voltado para o interior durante as férias. A sorte dela (e minha) é o supermercado é o meu vizinho do lado, ou seja, foi para lá que fui mandada. Por mais que supermercados sejam sempre meu ponto fraco, era o lugar que eu menos queria ir no momento.

      Mas fui, ainda com cara de sono e cabelo despenteado. Escolhi entre multiusos, lustra móveis, desinfetantes e outras coisas com cheiro-de-limão-cítrico, o que mandava a lista. Aquelas prateleiras de comida me lembraram que eu não havia almoçado e que a falta de humor e cansaço poderiam ser apenas algumas consequências disso. A padaria, a vizinha do meu vizinho, me chamava pelo nome, como se fosse necessário que eu tivesse que escolher o meu almoço justamente ali. E era.

       Nos vinte passos até a padaria, pensei que talvez não fosse só eu que estivesse com fome e não tivesse almoçado. Talvez a diarista Cida estivesse na mesma situação que eu (ou pior). Decidi que eu precisava um lanche com queijo branco assim como ela precisava de um misto quente. Seguida desse pensamento, percebi mais uma vez o quanto eu gostava de agradar, ajudar e surpreender as pessoas. A menos de um mês atrás eu descobri que o que realmente me fazia feliz era ver as pessoas felizes. Parece idiota falar em voz alta, mas é o que me faz acordar todos os dias com um sorriso no rosto, mesmo quando tudo o que você não precisa é ser acordada pelo telefone, campainha e diarista.

      “Um misto quente e um queijo branco para viagem, por favor”.  Do movimento entre o balcão e alguma mesa com lugar vago, dei de cara com um homem falando ao telefone. Daquele momento que você ainda não acordou e reconhece esse tal homem, mas ainda não tem certeza ou não não acredita que realmente seja possível, eu simplesmente fiquei parada, encarando com boca aberta e sacola do supermercado na mão. Ele me viu (.. não tinha como não ver) e acenou. Eu não tenho certeza do que foi aquilo e infelizmente não consigo narrar os momentos seguintes porque não lembro. Só sei que finalmente procurei um lugar vago e fiquei lá sentada apenas me certificando que ele não iria embora (… nunca).

      Agora posso dizer que aquele homem é o meu cantor favorito, um dos meus grandes ídolos. Lucas Silveira, cantor e compositor da banda Fresno. Confesso que ainda tenho aquela grande admiração pela banda, que gostei a tempos atrás, mas assim como supermercados, ele é o meu ponto fraco. Já faz tempo que ele esta na minha lista de famosos favoritos, antes mesmo de ele ser famoso. Foi ele que fez a minha adolescência não ser um fracasso. E era ele que se encontrava ali, poucos e quase 0 metros de mim. Falei com ele, disse que era fã, que admirava o trabalho. Ele sorriu, agradeceu e até piscou para mim. Eu sei que sou eu que devia agradecer por ele simplesmente estar lá, mas agora me deu uma vontade de agradecer a vida.

      Chamem de sorte, de karma, de estar no lugar certo na hora certa. Eu chamo de surpresas da vida, porque foi o que significou para mim. A rotina tira o ar, pisoteia, aumenta a dor de cabeça e não há remédio que cure. Sempre odiei rotinas e hoje me vejo presa em uma que eu mesma escolhi, sem ter como fugir. Não reclamo porque é o que eu preciso, é o que quero para minha vida. Se quero ajudar, eu tenho que antes ser ajudava, ser ensinada. Só que naquele momento, em que depois da chuva e simplesmente aparece não se sabe de onde um arco íris, a minha rotina foi quebrada com uma inspiração que sorriu para mim.

       Não foi o momento perfeito, porque não existem momentos perfeitos. Mas foi o momento perfeito para mim, aquele que eu precisava e desejava como o ar que me faltou durante a semana e quando encontrei ele. Enquanto eu dormia, chuviscava lá fora e agora olho pro céu e ele já esta azul de novo. A terra da garoa hoje me deu uma brecha. Daqui da sala, ainda enrolada nos cobertores, escuto a Cida limpando meu quarto. Sei que por um breve momento fiz ela feliz, assim como a vida me fez (e faz) feliz.

lanche, cobertor e Ed Sheeran.
lanche, cobertor e Ed Sheeran.

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