O lanche e as suas consequências..

Fui convidada para ser guia turística de um grupo de californianos que vinha participar da Jornada Mundial da Juventude, no Brasil. Com o convite, vinham as instruções: você cuidará do ônibus, ajudará na tradução, além de aproveitar e peregrinar também. Com um pagamento bom, oportunidade de aperfeiçoar o inglês, participar da JMJ e ainda conhecer Foz do Iguaçu, Curitiba, Aparecida e Rio de Janeiro, eu fui. Fui e levei minha irmã junto para cuidar de mim enquanto cuidava de tudo.

A jornada foi, podemos dizer, um pouco diferente do que me disseram. Tivemos problemas em todos os hotéis, não tendo reserva e onde dormir, atrasos no ônibus, acidentes no meio do caminho, motoristas desistindo da viagem, idas ao hospital, frio que atrapalhava todos os planos e falta de organização. Eu, assumindo o compromisso, fiz questão de me responsabilizar e resolver todos os imprevistos que apareciam, procurando quartos, comida e o conforto que os meus jovens precisavam. Cheguei em limites que eu desconhecia e realmente não sei como consegui superar. Deitei na cama chorando várias noites e não consegui dormir pelo simples medo de perder hora. Passei a viver cada dia de uma vez porque já era coisa suficiente para lidar.

Nos últimos dias da viagem, no caminho para o Rio de Janeiro, os jovens cansados imploravam por um lanche familiar do McDonald’s. Procurei o restaurante mais perto, mostrei para o motorista e pedi que fossemos lá, mas ele negou dizendo que não poderíamos ir já que estava fora do contrato assinado. Mais uma vez estava decepcionada e decepcionando o grupo. O motorista disse que pararia no Grau, famoso posto de conveniência, porque era lá que ele abasteceria e nós comeríamos o que o local tivesse para oferecer. A sorte (se é que podemos chamar isso de sorte) foi que tinha um McDonald’s exatamente ao lado do Grau, ou seja, missão cumprida para todos.

Eu não tive tempo de tomar um café da manhã reforçado e muito menos de almoçar, então fui em direção ao McDonald’s para me certificar que eu também teria algo para comer. O problema foi que os americanos já estavam lá, nenhuma atendente falava inglês, a fila era gigante e sobrava mais uma vez pra mim. Cansada, mas ainda não desistindo, fiquei ao lado do caixa traduzindo enquanto eles pediam hambúrguer, batata frita, coca grande e ketchup. Willie, o penúltimo californiano da fila, segurava uma nota de cinco reais e pediu para que eu perguntasse à atendente quanto ficaria um lanche de peixe e batatas fritas. A resposta (obviamente) ultrapassava os 5 reais, ou seja, ele não tinha o dinheiro necessário. Eu não sabia o que fazer, o que dizer e como responder. Só lembro que a menina de trás, a última do grupo na fila, percebendo a  situação toda disse que ele poderia pedir o que ele quisesse porque ela pagaria.. Aquele momento significou tanto que esqueci meu lanche, o apetite e todo o cansaço. Esqueci de desistir, esqueci de reclamar. Eu perdi a fome, mas ganhei a vontade de viver.

Tenho certeza que ela ficou feliz em ajudar. Ele mais ainda em ganhar o lanche. Só que aquela cena e toda a maré de sentimentos seguintes, fez com pela primeira vez naqueles dias, eu chorasse de alegria. Chorei porque quem estava sendo ajudada ali era eu. Olhei para o lado e a minha irmã chorava também.

                Para mim foi estranho ver um americano, que na minha cabeça significava todo o primeiro mundo, sem ter o dinheiro necessário para matar a fome. E eu estava tão acostumada a ajudar e proteger, que simplesmente deixei de perceber a riqueza de uma simples mão estendida. Foi naquele momento de impacto que eu tive a confirmação do porque estava ali.
Dizem por ai que os mais fortes sentimentos vem das coisas mais simples e hoje posso dizer que o meu veio acompanhado de batatas fritas.

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10 comentários sobre “O lanche e as suas consequências..

  1. Giovanna,

    Teria muitas coisas para lhe escrever…

    Deus convoca para as batalhas mais difíceis seus melhores soldados, você é uma SOLDADA fiel , dedicada e com um coração do tamanho do mundo..até parece que você quer colocar todo mundo lá!!!.
    Tudo o que aconteceu nesta viagem com você e a Gabriela foi uma profunda declaração de amor de DEUS para com vocês, foi um tempo de aprendizado profundo que deve ser levado para toda sua vida…esta é minha maior alegria..em saber que esta peregrinação mexeu com seus sentimentos: ;de alegria, de sofrimentos, privação, raiva, “ódio”, agradecimento, louvor, oração, introspecção, de PROVIDENCIAS DIVINAS nos momentos quando não temos mais esperanças…. ter a certeza que ELE está contigo e não te abandona….percepção da própria existência e suas mais variadas formas de manifestação…tudo isto gera um auto conhecimento fantástico…Fico feliz também quando você diz: ” nossa eu não sabia que era capaz disto ou daquilo”…e você foi capaz.!!!! Quando você quer, você pode…você faz!!!!

    Gi, vá em frente, um caminho maravilhoso está reservado a Você, creia nisto!!

    Beijão, te amamos muito!!!

    Daniel, Carla e Gabriel!!

  2. Gi, você está de parabéns!!! Que é uma pessoa muito especial eu já sabia; o seu depoimento só veio confirmar (e me emocionar…) a grandeza de seu coração e como está na carreira certa! Que Deus a abençoe e sua família. Beijos, Flávia

  3. Gi, gostei imensamente da partilha destes momentos incríveis. Voce e eu sabemos bem de onde vem esse lastro, para que tudo isso que aconteceu, possa ter sido traduzido com tanto amor. Alguns, na mesma situação, poderiam estar maldizendo terem estado na JMJ. Voce olhou para tudo com olhos de amor. Amo vc. Mesquita

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