Olhos brilhantes.

Sai da loja feliz. Todo mundo que já ganhou um presente (e gostou dele), conhece esse tipo de felicidade. Instântanea, animadora, mas passa rápido, bem rápido. Foi só atravessar a rua e chegar na loja da frente que o momento já tinha se acabado.

Dou de encontro com um menino jogado na rua. Chutaria 19 anos, no máximo, exatamente a minha idade. Tinha a pele negra, os olhos brilhantes. Era alto, grande, forte, o que foi comprovado mais tarde. O chão estava molhado, havia chovido horas atrás. Ele estava de bruços, com os braços presos pela mão de um outro homem. Ele se contorcia, se debatia, na tentativa de se soltar. Dessa vez foi tão forte, que ele conseguiu o que queria. Correu dois passos e foi pego novamente. Só que agora foi pior. O homem segurava com mais força, batia. Chegou reforço, outro homem para segura-lo. Antes disso, tirou um fone de ouvido do bolso do rapaz e guardou no dele. Pressionava o corpo, os braços e o rosto do menino em direção ao chão. Dava para ver o medo do rapaz pelos olhos. Ele não disse uma palavra sequer, mas eu entendi o que ele queria dizer.

Imagem

Ele queria aquele fone de ouvido já fazia tempo. Na verdade, todos queriam. Até eu, tempos atrás, disse que a minha próxima compra seria aqueles tão sonhados, grande e coloridos fones de ouvido. Mas era caro demais, muito dinheiro por apenas uma coisa. A solução para ele foi roubar. Eu não o julgo e espero que você também não. Não se você vissse aqueles olhos. Aquele medo que se escondia por trás. Era medo de ser pego, das consequências, do que iriam dizer. Era medo de continuar vivendo nessa sociedade. Medo de desejar tanto uma coisa, mas não ser capaz de conseguir ou comprar.

A vendedora da loja disse que não era para eu me preocupar. A loja era inteira de vidro, o que me deixava de camatore na situação. Dou risada só de lembrar que eu não deveria me ‘preocupar’. Não sei a história, origem ou enredo do rapaz, mas eu conheço aqueles olhos. Ele não desistia, parecia que simplesmente não podia ficar lá. A força e a vontade de escapar era tão grande, que nem dois homens razoavelmente fortes forão capaz de prende-lo. Tem uma frase que eu gosto muito que diz ‘é difícil aprisionar os que tem asas’. Ele simplesmente fugiu. Se soltou e correu com uma velocidade absurda. Os homens foram atrás, obviamente, mas parecia ser difícil pegar aquele rapaz. Ele tinha um força que com certeza vinha da vida, da necessidade de ser forte.

Eu não sei o final dessa história. Ele simplesmente escapou e o meu camarote não era bom o suficiente para dizer pra onde. Ele fugiu, fim. Se foi pego, eu não sei. Na verdade, nem sei se quero saber. Não porque eu não me importe, mas porque talvez a verdade doa demais. Quando ele escapou, eu comemorei. Dei um grito quase-silencioso e bati minha mão uma na outra. Minha irmã mandou eu ficar quieta, aquele garoto tinha roubado a loja que eu me encontrava. Pode parecer inocente demais, mas acredito que uma parte signifinicativa dos clientes também comemorava. Talvez a gente torça para quem está perdendo. Ou simplesmente porque nenhum ser humano merecia ser arrastado naquele frio, calçada e chão molhado. Nenhum ser humano deveria ser tratado daquela maneira. Mesmo depois de ter roubado um fone de ouvido.

Eu gosto de imaginar que ele escapou. Fim. Acredito que ainda teria o medo constante de ser pego a qualquer momento, mas depois de toda aquela situação e por pior que tenha sido, ele aprendeu. Ensinou mais que professores, mais que polícia, cadeia ou sei lá, serviço comunitário. Eu prefiro imaginar que ele nunca mais faria aquilo e que nunca mais teria que passar por situação igual. Prefiro acreditar que enquanto ele se debatia, se arrastava, seus olhos brilhantes se encontraram com o meu, que estava preenchido de lágrimas, e durante um mísero segundo, ele sentiu que as coisas podiam ser diferente.

Mesmo nessa sociedade consumista, na pressão por ser e ter tudo e principalmente nesse mundo que te julga por cada pequena ação, eu espero que ele tinha percebido que eu acreditava dele. E torcia por ele. E mais ainda, que eu confiava nele. E confiava principalmente naqueles olhos brilhantes.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s