Regra da Felicidade.


(Jean, essa é pra você)

Ele me chamou, me convidou pra entrar. Eu sorri assustada, apreensiva, mas entrei. Ele gritou, mas me disseram que era normal. Eu fico.

Ele têm síndrome de down, não consegue falar, apenas se comunica por gestos. Ele brincava com peças de encaixa-encaixa, da sua própria forma, e eu, na minha inocência, tentava entender. Eu queria participar, era claro que eu queria, mas não sabia como. Só que ele me convidou, abriu o espaço e sorriu. Ele me chamou para sentar. Eu precisava aprender.

Na minha cabeça a brincadeira deveria ter uma lógica, como uma equação matemática, e eu só precisava descobrir a sua solução. Só que  era mais difícil do que eu pensava, eu não conseguia compreender e não chegava ao resultado. Enquanto ele se divertia, eu me perdia. Até perceber que algumas coisas (ou quase todas) não vem com manual de instruções e regrinhas básicas.

O que aconteceu com ele foi um erro genético (ou melhor, um acerto), fugindo de qualquer lógica. Não seria eu, a pessoa de humanas, que encontraria a equação. E ele se divertia sozinho, de qualquer forma, da maneira mais simples que conseguia. Eu não entendia o sentido, o modo, as razões, mas ele era feliz assim. Eu só queria que ele fosse mais feliz ainda.

Ele me mostrava os passos, o jeito que a peça deveria entrar e sair copo, mas-essa-não-aquela, faz-assim-e-não-assim,  é-você-quase-entendeu. Eu não havia entendido, não sei se ele sabia, para mim não fazia sentido. Mas eu apenas segui os passos, ouvi com atenção e brinquei.

Não existia segredo e eu não precisava da formula mágica para participar. Ele só queria que eu entrasse, sem nem questionar. Que não perguntasse como-faz e apenas fizesse. E eu entrei e sentei. Ele me aponta as peças, eu coloquei. Eu fiz, sem nem uma palavra.

É, ele sorriu, eu sorri.
E eu tive certeza que a felicidade não tem regra.

keep-calm-chromosome

(brinquei tanto que não tirei foto, mas deixo essa como forma de agradecimento)
“mantenha a calma, é apenas um cromossomo extra”

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Um comentário sobre “Regra da Felicidade.

  1. Gi, muito obrigada por este texto tão cheio de sensibilidade! Tenho experimentado na pele o que é conviver com alguém com um cromossomo a mais… Minha filhinha nasceu com síndrome de Down, e só descobri ao nascer… Pensei tantas vezes se seria capaz de cuidar, de entendê-la… É só um cromossomo a mais, e um amor imenso nasceu em mim… Só se vê com o coração, como você sensivelmente percebeu…

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